domingo, 21 de outubro de 2012

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Não há título de postagem no post de hoje. Sequer haveria postagem se eu não tivesse tido vontade de escrever aqui, mesmo sem inspiração alguma para fazê-lo. O certo é que minha vida anda um tanto estranha. Estranha não, vazia. Talvez o vazio cause essa estranheza que não era costumeira nos dias de antes, mas mesmo assim tenho me acostumado à ela. Nos acostumamos ao que é ruim tão rapidamente, não nos acostumarmos com o estranho é algo que não se poderia entender. No entanto, que nada tem de no entanto pois não guarda conexão com a frase anterior, percebi que a estranheza do vazio é constante em todas as vidas, não só na minha. Parando um pouco para pensar, refletir sobre a existência em si, é como parar e refletir no amontoado de nadas que vivenciamos, as alegrias e tristezas que não darão em nada, as brigas e reconciliações que em nada resultarão. Nada, pois nada sobrevive. Se sobrevivem as memórias, e não as pessoas, então não se faz necessário guardá-las, pois de nada servirão. Memórias de pessoas queridas duram um tempo, mas passa o tempo, e com ele as pessoas queridas se vão, e as memórias dos queridos desses já não tem mais importância, pois não são queridos por ninguém ainda vivo. Vivemos vivenciando a vida que acabará em nada, como todas as outras. Nada é mais presente que o nada. E nada mais puro que o nada do que o cotidiano e seu peso que paira sepulcral sobre nossas cabeças (tão cheias de nada).

domingo, 19 de agosto de 2012

Aqueles dias azuis

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A sensação de desamparo é enorme. Não importa onde se apóie, não se encontra apoio. A vida, que por vezes tratamos como bela, na verdade é algo difícil de se seguir conforme o tempo passa. Todos passamos por uma parte da vida em que ela é bela, sem preocupações, onde as coisas parecem estar exatamente onde elas devem estar. No entanto, conforme os dias, os meses, os anos passam, vemos que a felicidade é momentânea, e a não ser que tenhamos muita sorte, a vida vai tratar de ser triste na maior parte do tempo, difícil de se seguir em frente. Queria voltar pra antes, muito antes do dia de hoje, queria voltar anos e anos, pra ter de novo a sensação daqueles dias azuis, sem preocupações, tristezas ou pessimismo...aqueles dias em que a tranquilidade e a felicidade da vida parecem ser eternos, aqueles dias em que o tempo de criança parece que vai durar para a eternidade. Infelizmente, passa rápido, acaba, e assim se vão os dias, sem sentido e sem hora para acabar.

domingo, 12 de agosto de 2012

1º dia dos pais sem ela

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Hoje é o primeiro dia dos pais que passamos sem a minha amada mãe...Dói tanto, mas tanto não ter ela aqui...É um vazio enorme que fica, sem a presença iluminada, a força vital e a alegria de viver que só ela tinha.

Não está sendo fácil achar o rumo, continuar aqui sem você minha mãe, você que sempre foi minha melhor amiga, minha mãe tão adorada...até como filha te tomava, cuidava de você, não queria nunca que sofresse, nem que tivesse ido tão prematuramente, sem aproveitar tantas coisas que ainda queria.

Ai mãe...te amo pra sempre e mais que tudo nesse mundo...você sempre foi e continuará sendo a luz da minha vida. Ilumine sempre os nossos caminhos e nos transmita a sua paz, para que possamos continuar essa caminhada difícil, e agora sem graça, sem você aqui presente. Te amo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Caminhos

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De tanto pensar nos caminhos que a vida nos oferece, e de pensar onde eles poderiam ter nos levado se tivéssemos tomado outra direção, ter seguido pela direita em vez de entrar pela esquerda, acabamos loucos. O que faz da vida suportável, por vezes, é não pensar no que teria acontecido se, e se, sempre se...Aceitar o que acontece faz parte de nossa jornada, e para que continuemos a viver normalmente, não adianta nos revoltarmos com coisas que são inerentes ao ser humano. A saudade, a solidão, a tristeza, a felicidade, as alegrias, as conquistas...todas elas são passageiras, bem como nossa breve vida...que se formos pensar de forma mais ampla, não é absolutamente nada perante a grandiosidade do universo e todo o desconhecido a sua volta. É estranho pensarmos que estamos aqui de passagem, que tudo não passa de uma fase...mais estranho ainda é pensar que somos como bonecos em fase de teste, para ver se estamos prontos para seguir nosso caminho... A caminhada eterna rumo ao que não temos conhecimento nos deixa com medo de ir até o final do caminho...mas se tivermos coragem de ir até o fim, com certeza veremos que a vida é só parte do infinito.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

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Agora acessei o orkut, como saída do blog, um orkut já totalmente abandonado, do qual excluí a todos, pois não queria mais orkut, ficando como única integrante minha namorada, hehe. Bom, de saída, sem querer, baixei os olhos e vi a sorte do dia: ''Lar é onde está o coração''. Lembrei-me de um trecho de um livro de memórias do Tony Judt, no qual ele falava essa frase e dizia logo em seguida que seu coração havia ficado há muitos anos numa viagem que fizera a França, quando ainda era criança, numa cidade pequena e cercada de montanhas enevadas. Seu coração estava lá, desde tempos remotos, e sempre que se lembrava de algo que o aconchegasse, lembrava do chalé que havia ficado com a família nessas férias passageiras.

Para mim, com certeza lar é onde está o coração...quando me lembro de lar, casa, aconchego, me lembro da minha mãe...da nossa casa na rua Campos Salles...das risadas e dos bolos horríveis que ela fazia. Vontade eu tinha de ir pra casa naquele tempo, de poder encontrá-la bem e viver normalmente. Meu coração sempre estará com ela, onde quer que ela esteja...carregando dentro de mim, por toda a vida, meu amor incondicional e a saudade eterna que fica.

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Nossa...hoje acordei com uma saudade da minha mãe que me sufoca o peito...faz faltar o ar...ai que coisa horrível. Antes qualquer saudade que eu tenha sentido sempre foi passageira, era só ligar, ou ir até o cômodo ao lado, que lá estava a minha mãe, e eu podia beijá-la e abraçá-la o quanto eu quisesse. Como eu me arrependo de não ter feito isso mais vezes, ter feito isso todas as vezes que vi ela...lógico que ela ia achar muito estranho, mas vendo como estão as coisas agora, que não posso mais matar minha saudade dela, tudo que eu queria fazer era voltar no tempo, só pra ter o gostinho de conversar com ela um pouco, poder dizer que a amo de novo, e de novo, e de novo, e pra sempre. A saudade que eu tenho dela é gigante...não ter mais nossos diálogos diários, para mim, é uma tortura...tudo o que acontecia eu gostava de comentar com ela, minha amiga de todas as horas...conversávamos de tudo! Nos divertíamos muito juntas também, porque, como se não bastasse já ser um ser maravilhoso como ela era, ainda por cima era engraçada!

Hoje acordei com uma dor terrível no peito, por isso vim aqui escrever. Ultimamente ando escrevendo pra mim, só pra desabafo, e pra ela, pois quem sabe de onde ela está, não consiga ver o que eu escrevo...ela gostava tanto desse blog..que criei inclusive porque ela ficou no meu pé...dizendo pra eu fazer um..isso há algum tempo.

Que tristeza que eu sinto de não te ter aqui mãe...a saudade é muito grande, o vazio que ficou é impreenchível. Sua ausência sempre será sentida, eternamente...mas sua presença continuará para sempre dentro do meu coração.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

15 dias sem ela.

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Hoje faz quinze dias que minha mãe morreu. A dor vai acalmando com o passar dos dias...lógico que a presença de pessoas mais que importantes ao nosso redor acaba nos dando mais força para seguir a caminhada. Sempre tive esperança, sempre achei que um dia, cedo ou tarde, minha mãe venceria a luta contra o câncer, terminaria de vez com essa guerra sem fim. Mas...no final das contas,  doença levou a melhor, levou minha mãe embora, pra bem longe de nossas vistas. A dor é grande, muito grande, mas o choro vai passando com o tempo, e a sensação de incredulidade, pelo menos em mim, cresce a cada dia...Parece que tudo não passou de um sonho ruim, e que no dia de amanhã quando acordar, ela vai estar por aqui, dando aquela risada gostosa, com sua presença iluminada...
Infelizmente, a morte é algo certeiro em nossas vidas...não temos como escapar dela, pelo menos isso me consola. Sei que ninguém ficará impune à dama de negro...todos acabaremos nos seus braços, cedo ou tarde, rico ou pobre, alegre ou triste...Mas o que mais dói em mim é o fato de que eu achei que ela era invencível, insuperável, inigualável....pra mim, minha mãe venceria a vida toda todos os problemas que cruzassem seu caminho...venceria sempre e seria sempre soberana...
Após 12 anos de luta contra o câncer, ela perdeu a guerra. No entanto, venceu inúmeras batalhas, além de ter provado a todos que estavam à sua volta o que é força, vontade de viver e garra. Viveu, desses 12 anos com a doença, uns oito meses um pouco mais debilitada. O resto do tempo, onze anos e pouco, viveu como se não tivesse nada. Sempre com alegria, fazendo as coisas que queria com total disposição e vigor físico. É inacreditável ver as esperanças e sonhos que tínhamos se esvaindo um a um, sem deixar a nós que tanto a amamos um alento, um conforto, um beijo de despedida.
No começo desse ano, quando ela teve uma infecção severa na boca devido a quimioterapia, achei que seria o fim. Ela ficou sem comer por cerca de um mês e meio, ingerindo só água basicamente no primeiro mês. No entanto ela venceu de novo. Foi internada mas saiu do hospital andando, com total disposição pra começar tudo de novo. Mas o destino não deu trégua...e logo em seguida ela teve que parar de tomar a quimioterapia, pelo fato de sua medula não estar aguentando mais os medicamentos, que estavam acabando com seu organismo antes que o câncer o fizesse.
Com a pausa no tratamento, o tumor avançou de uma forma inacreditável...em cerca de quatro meses, o que antes estava controlado evoluiu demais, ela emagreceu muito, perdeu toda a gordura do corpo, ficou pele e osso...e barriga, pois a doença do fígado avançada, como era o caso dela, câncer de mama metastático para fígado, acaba gerando um acúmulo de água na cavidade peritonial, na barriga, gerando um fenômeno chamado ascite. A pele com o tempo foi amarelando...mas eu sempre me apeguei aos olhos...minha mãe sempre me dizia que quando os olhos de alguém estavam amarelos já não tinha o que fazer. Então, mesmo que tudo estivesse indo contra as nossas expectativas, me apeguei aos olhos...enquanto os olhos estivessem claros, ainda brancos, tudo estaria bem. Até o dia em que comecei a notar pequenas veias vermelhas no interior dos olhos, como se fosse uma pequena irritação. Pensei, ''não, não pode ser, deve ser só uma irritação mesmo''. Mas os dias foram passando e vi que a irritação não melhorava...até que o aspecto vermelho foi passando e deixando um amarelado nos locais em que antes estavam vermelhos. Foi algo gradual, mas que um dia, quando olhei, já estava totalmente amarelo. Quando os olhos amarelaram, e eu vi que não era algo passageiro, tentei me apegar em algo que me fizesse acreditar que não estava tudo perdido...não sei em que me apeguei, mas ainda conseguia ter espeeranças. Tive esperanças até os últimos dias, quando uma diarréia acabou por deixar ela de cama quase que direto, no tempo em que ficou em casa. Um dia, então, a noite, ela ficou com sono, muito sono...começou a embaralhar as idéis, não conseguia mais falar normalmente, pois o sono não estava deixando ela articular os pensamentos...até que dormiu. Chamamos o SAMU, que veio rápido, e levou ela pro hospital. Ela ficou internada cinco dias até morrer. Nos cinco dias, dormiu sem parar, não acordou mais... a insuficiência hepática causou um acúmulo de toxinas no organismo, que acabaram por afetar o estado de vigília e a deixaram dormindo sem parar. Não sentiu dor e nem teve consciência de que o fim estava lá, logo ao lado. Pelo menos nisso Deus foi bom, deixou ela com esperança e com a certeza de que tudo estaria certo e de que tudo estava bem até o fim.
Aprendi com a minha mãe que não existe nada no mundo mais importante que o amor. O amor é o sentimento mais puro que existe...um amor verdadeiro salva o ser humano de qualquer pequenez, o dignifica. Aos que ainda podem demonstrar seu amor por quem ama, sem que seja em orações, que o façam todos os dias, tanto em palavras quanto em seus atos. Tive tempo de demonstrar o meu, ainda bem. Mesmo longe, fora de minhas vistas, minha mãe está aqui, em tudo o que me ensinou, nas conversas que tivemos, nas risadas que demos e nos choros que compartilhamos. Está aqui, viva enquanto eu viver, dentro do meu coração, como a minha amiga mais querida, minha melhor amiga, a melhor mulher, a melhor pessoa que poderia ter existido. Já não está mais aqui pela sua grandeza...o mundo é para os fracos e pobres de espírito. Que a jornada dela seja repleta de luz, que os caminhos que esteja trilhando agora estejam livres de qualquer doença e qualquer obstáculo, e que a passagem para o outro lado tenha revelado que a vida é apenas uma pequena parada frente à eternidade que nos espera.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

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Os dias passam...as lágrimas vão secando. Não sei como mãe, mas elas vão...Achei que iria chorar por toda a minha vida sem parar. Mas acho que daí, de onde você está, sem dúvida nenhuma está me passando toda a força que estou tendo pra enfrentar a pior situação do mundo: o dia a dia sem você! Ai mãe, sinto tanto a sua falta...falta de acordar e te ouvir gritando com o Théo, de te ouvir rezando sua noveninha, de ouvir você cantar qualquer coisa...de sentar no sofá com você e conversar sobre qualquer coisa durante um tempão...sair pra comprar alguma coisa...que saudade de viver com você.

Não que agora não viva...não é porque você não está mais nas minhas vistas que não está mais nos meus pensamentos e no meu coraçao! Ontem foi sua missa de sétimo dia já mãe...hoje de manhã fez uma semana que não está mais aqui entre nós...Acho que não estou chorando mais justamente porque já fazia tempo que eu chorava sua morte...desde quando começou a fica ruinzinha eu senti que dalí não teria volta!

Mãe, se puder me ouvir, me ver, me sentir, onde quer que você esteja...saiba que meu amor por você é infinito...e que eu estou continuando aqui por você, pela pessoa que mais amo no mundo e que tão prematuramente foi tirada do meu convívio. Você é especial, é diferente, é linda por dentro e por fora...e será sempre assim. Você é a luz da minha vida mãe. Aqui, você iluminava meus caminhos com a sua presença...espero que de onde quer que esteja, continue iluminando minha vida e me confortando de sua partida.

Que você esteja num lugar inimaginavelmente lindo, cheio de amor, paz e ternura, que esteja feliz, radiante! Que nosso reencontro seja breve...e a permanência longa, muito mais longa do que a dessa vida!

Te amo pra sempre mãezinha!!

sábado, 28 de julho de 2012

Mãe

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Não acredito que você se foi. O vazio por aqui está infinito...Não sei se vai amenizar um dia a dor que estou sentindo pela sua perda, mesmo com todos dizendo que a dor vai embora, ficando somente a saudade...

Mesmo morrendo de saudade de você, indignada pela sua partida, uma coisa me conforta, e muito. Eu tive tempo, mãe. Tempo de falar pra você o quanto te amava...tive tempo de te colocar pra dormir todos os dias, durante muito tempo, tempo de comprar tudo o que você estava com vontade, tempo de conversar sobre tudo, tempo de te tranquilizar...tempo de te amar incondicionalmente e largar absolutamente tudo pra estar ao seu lado.

Meu amor por você é infinito, e só vai aumentar com o passar do tempo...Mesmo você estando longe de mim, meu amor não vai deixar nunca de crescer cada vez mais, não irá se passar um único dia sem que eu morra de saudade, sem que eu reze por você, sem que eu lembre do seu sorriso lindo e da sua voz acalentadora.

Justo você mãe, justo você foi embora...tudo o que eu mais amei...foi embora com você! Mesmo tendo feito a passagem, continuará sempre viva dentro de meu coração. Sempre tive medo de te perder...a única coisa da qual realmente tive medo na vida. Não tenho mais medo de nada na vida...a única coisa que temo é talvez nunca te ver novamente. Espero que exista tudo o que dizem que existe do lado de lá...espero que logo possa te reencontrar, te dar aquele abraço bem confortante e aquele beijo bem demorado na bochecha, que só que costumava te dar. Todos aqui estão inconsoláveis. Obrigada por tudo, pela força absurda que sempre teve, pela alegria contagiante de todos os dias, pelo senso de humor inabalável e pelo carinho sempre dispensado a nós. Você me mostrou o que é ser forte, o que é amor pela vida e sobretudo, o que é o amor pela família.

Vai em paz minha guerreira, minha melhor amiga, meu amor, minha mãe. Até que eu de novo te encontre, que Deus lhe guarde na palma da mão.

Lembra?...

" Em cada recanto, e no coração de todos os que nos acompanharam, fica um pouco da história de nossas vidas; o riso solto da infância, os sonhos da adolescência...Pressentida saudade deste presente, nos longes do meu futuro."

domingo, 15 de julho de 2012

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A menina das tranças no cabelo corria de um lado para o outro da casa, sem parar, fazendo ranger a estrutura velha do antigo casarão com ares de abandono na rua sem saída em que viviam. A madeira já ressequida pelo tempo rangia ao menor toque das solas de sapatos cautelosos, dos sapatos da pequena criança então, as madeiras passavam a emitir uma sinfonia desordenada de sons desconfortáveis que ecoavam pelos corredores vazios da casa. E parecia que quanto mais barulho emitiam as madeiras, mais a menina corria, pulava e ria. Ela gostava do som, em contraste ao silêncio de tudo aquilo. A quem olhasse, parecia que a menina das tranças amarelas preferia ver o casarão desabar a continuar ali, dia após dia, naquela solidão habitada e tão pouco hospitaleira em que vivia.

A mãe da menina já há algum tempo não saía da cama. Pela casa antes o que se ouvia era movimento, risadas, conversas incessantes e animadas, todos os dias sem parar. Mas, junto com a saúde da mãe da menina, também se foram os risos e as conversas animadas, o brilho nos olhos de todos os que lá viviam. O pai já havia lhe dito, à menina das tranças, que cedo ou tarde a mãe nem mais lá deitada estaria, devido à sua saúde precaria. Mas a menina não se conformava e mesmo contra todas as expectativas, resolveu ter esperança, por mínima que fosse. Preferia brincar e correr pela casa, ranger tudo o que pudesse para que o silêncio ficasse menos silencioso. Preferia a falta de sossego que preenchia a casa antes ao excesso de silêncio agora. Mesmo que ninguém falasse nada, o silêncio caía sobre todos como uma sentença, uma condenação ao que todos já sabiam. O barulho que fazia, em contraste à mudeza de todos, funcionava como um protesto à morte, à dor e a solidão.

E os dias passavam assim, entre silêncio, rangidos e medo, medo daquele fim que ameaçava, sempre pairando no ar, mas ainda clemente perante as preces e os barulhos incessantes da menina.

Tempo

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"Quero valsar aquela antiga canção, que dizia que o tempo era meu, que faria com ele o que bem quisesse, que tudo sempre estaria lá, que tudo sempre retornaria. Só mesmo naquela velha canção, já rouca pelo tempo, é que as coisas assim se dão. O tempo e o vento, aprendam, só traz saudade e desalento, carregando consigo a felicidade de ontem."

sábado, 2 de junho de 2012

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Pagaria cada centavo pra poder voltar no tempo e deixar ele congelado por uns mil anos! Éramos felizes e não sabíamos, na época das vacas magras...rs. Que saudade! Só a saúde é que trás felicidade, incontestavelmente.

domingo, 1 de abril de 2012

O descompasso do Superior Tribunal de Justiça

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Para quem está meio por fora do que anda decidindo o Superior Tribunal de Justiça desse país, eu vou contar.
Na semana passada houveram duas decisões, digamos, completamente descompassadas com o ordenamento jurídico e com a moral prezada na legislação, refletindo também a má qualidade dessas últimas.
Foi decidido que o condutor de veículo automotor não é mais obrigado a fazer o teste do bafômetro, pelo que todo mundo já sabe, não é obrigado a produzir prova contra si mesmo. Entretanto, o condutor visivelmente embriagado podia antes responder civil e penalmente por sua infração, mas agora não será mais assim, pois somente exames de sangue ou bafômetro, logicamente que todos eles consentidos pelo condutor do veículo, poderão provar a embriaguez ao volante, caso contrário, não sofrerá sanção alguma, não sendo mais válida a prova testemunhal nesses casos, nem mesmo exames clínicos. Ok, maravilha. Logo, percebemos que a Lei Seca, que deu o maior bafafá quando foi lançada, acabou por surtir em nada! Exato, pois qual seria então a eficácia da lei se não se pode obrigar o motorista a nada e não valem mais as provas clínicas e testemunhais? A lei cai, assim, no mais completo desuso, como tantas outras já caíram nesse país, quer seja pela ineficácia dos órgãos executivos, quer seja pela ineficácia dos legislativos, que formulam leis que acabam por se desmembrar com o tempo, em meio a inconstitucionalidades e princípios garantidores da dignidade da pessoa humana.
Outra decisão proferida pelo STJ semana passada também foi a de que um homem acusado de estuprar três meninas de 12 anos que se prostituíam é inocente. Sim, inocente. Fundamento legal? Nenhum, isso porque nossa legislação penal, recentemente modificada, prevê pena de estupro a quem pratique qualquer ato libidinoso com pessoa menor de 14 anos de idade, mesmo que consentido, pois uma criança de dez ou doze anos dificilmente terá a percepção exata do que está fazendo ao consentir o ato, mas o maior de 18 com certeza terá. Mesmo assim, o colendo órgão decidiu ser inocente esse homem pelo fato de as garotas se prostituírem, logo, o erro era delas em prostituírem-se com 12 anos, não do sistema em que vivem e nem do homem que com elas praticou o ato, mesmo sabendo terem as meninas idade tão próxima a da infância. Bem disse Alexandre Camanho, presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República:

"Uma decisão protege o estuprador, a outra, o bêbado."

Tiveram advogados, defendendo em veículos de comunicação muito acessados na net, que não se pode falar em corromper o que já está corrompido! Logo, a pureza e a inocência que a lei protege não mais existem nessas meninas, não estando elas então sob a égide da legislação, que teoricamente seria feita para atingir a todos. Relativizemos então as leis perante casos absurdos como esse e não viveremos mais em uma sociedade democrática, mas sim em um circo de horrores.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Status quo ante

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Só agora Bia se dava conta de como as coisas haviam mudado. Tudo estava sempre tão igual antigamente, vivia na espera de que algo novo acontecesse e a levasse pra bem longe do maquinal cotidiano. Entretanto, desde que as coisas haviam se transformado radicalmente, ela vivia pedindo à Deus que as coisas voltassem a ser como eram antes, no ano passado, no ano retrasado, há dez ou quinze anos atrás, quando ainda era criança, uma pré-adolescente cheia dos maiores sonhos do mundo, pulverizados com toda a certeza de que tudo daria certo sempre, fatalmente. Quando não desse certo é porque não era com ela, claro que não, pois tudo o que não dava ou viria a não dar certo não acontecia com ela.

Mas nos dias de hoje Bia via que as coisas também poderiam acontecer com ela, mesmo que fossem as coisas erradas a se acontecer. Elas aconteciam a qualquer hora, em qualquer estágio e no meio de qualquer boa notícia. Inclusive, más notícias sempre escolhem uma boa hora pra chegar, quando tudo está indo tão bem que até estranha-se a quietude do tempo.

Uma coisa ela havia adquirido desses tempos incertos pelos quais passava. O medo, de tanto senti-lo, havia se tornado algo tão banal e corriqueiro que já estava impregnado em tudo o que fazia, em todas as decisões que tomava. Viu que em tempos incertos, amigos não são amigos, colegas tornam-se desconhecidos e os dias, por mais ensolarados que amanheçam, sempre terminam cinzas. A vantagem do medo constante é não se ter nada mais a temer. Quem sabe dessa forma, a má sorte, vendo que o medo já não é novidade, resolva assombrar outras paragens e deixe a pobre menina em paz, voltando tudo ao que era antes.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Começando...

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Nossa, que desânimo pra um começo de ano. Queria sentir o que eu sentia quando era mais nova, quando o ano novo significava o surgimento de coisas novas, de que tudo ficaria bem. Junto com os fogos do reveillón vinha também a certeza de que tudo o que havia de errado antes não estaria mais errado agora.
Infelizmente, não tenho mais as ilusões que tinha quando era um pouco mais nova, nem tão mais nova, porque demorei bastante para perdê-las pelo caminho, mas não as tenho agora. Isso significa ter tido que acordar no primeiro dia do ano não com o ânimo de quem anseia pelas coisas boas que o ano novo trará, mas sim não suportando o peso da realidade sobre os ombros ao acordar.
Que ao menos 2012 repare os erros e as tristezas do ano que se foi.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fragmentada

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Não sei o que acontece, se é só comigo ou se tudo é parte um plano generalizado pra me enlouquecer. Ou me entristecer fatalmente. Só sei que tudo vai de mal a pior e não consigo mais ver saída ou ter esperança de coisa alguma. É o momento em que tudo que eu acreditava deixa de existir e tudo o que eu pensava que podia contar, como alicerces sólidos de uma construção, resolveram desmoronar. Ao meu redor sobraram somente escombros. E uma barata, que ainda por cima caiu em cima de mim hoje depois do almoço. Para completar meu momento de epifania, só faltou tê-la mastigado lentamente, tal qual G. H de Lispector, procurando reverter o quadro de sua vida moribunda, assim como a minha.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Confiar - Filme

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    Assisti hoje ao filme Trust. Confesso que no começo não botei muita fé, me pareceu ser mais um filme adolescente. Mas me surpreendi, principalmente pelo modo como a temática foi abordada.
    No filme, a jovem Annie, de apenas 14 anos sofre um estupro após ter conhecido um cara da internet. A princípio o filme poderia ser apenas uma liçãozinha de moral, de como devemos ter cuidado com qualquer relacionamento que comece na rede. No entanto, o filme se revelou ter um roteiro brilhante, mostrando como o caso ocorrido com a filha do meio do casal interpretado por Clive Owen (que pesou muito na minha decisão de assistir a esse filme) e Catherine Keener (outra atriz que, apesar de ter menor visibilidade, gosto muito) afetou a vida de toda a família.
    Annie conhece Charlie, seu amigo virtual, em um chat na internet. A princípio, Charlie diz ter apenas 16 anos, somente dois a mais que ela. Encantada com a forma como Charlie parecia maduro, Annie se envolve cada vez mais. Entretanto, aos poucos Charlie vai revelando sua verdadeira identidade. Ainda sem conhecê-la pessoalmente, revela que na verdade sua idade é de 20 anos e que está no primeiro ano da universidade. Após um curto tempo, faz nova revelação: não tem 20 anos, mas sim 25. Embora relutante com relação à idade, Annie continua falando com ele. Está apaixonada.
    Em um dia, quando seus pais viajam para levar o irmão mais velho para a nova casa em outra cidade, pois ingressou na faculdade, Charlie pede a Annie que se encontrem num shopping. Ela topa e é aí que começa de fato a história.
    No shopping Annie vê Charlie, e vê também que ele não tem 25 anos. Sua idade é de no mínimo 35. Com uma conversa fiada pra boi dormir, o tiozão acaba convencendo a menina de que ela é sua alma gêmea e que eles tem forte conexão. A partir daí, leva a menina pro motel e a força a manter relações sexuais com ele.
O interessante do filme é justamente o modo como o estupro se realiza. Todos tem aquela ideia de que é estupro quando alguém é violentamente violada, quando há ataque, luta. Mas não é isso que acontece no filme, que mostra o preconceito das pessoas em aceitar que o que Annie sofreu nada mais foi do que isso: um estupro.
    Annie não vê mais o agressor, que foge da polícia em seu encalço, pois é procurado por casos anteriores de estupro com menores de idade. Mostra a partir daí o abalo da família e a luta em voltar a viver normalmente. Dá grande enfoque a situações cotidianas carregadas de uma sensibilidade ímpar, que faz valer a pena por si só.
    Outro ponto interessante, e que se mostra no filme, é que o estuprador é um pai de família, professor, pessoa normal do círculo social. Enquanto todos se preocupam com maníacos do parque, o perigo pode estar mais próximo e com a cara mais comum que se possa imaginar. Boa dica de filme pra quem quer passar um tempinho na frente da telinha.

sábado, 5 de novembro de 2011

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"Queria mais que tudo estar contigo,
De novo, desde o início."

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Aquele fim de tarde

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Naquele final de tarde úmido à beira-mar, próximo à casa de tábuas coloridas em que morava, tão próxima da areia que não se conseguia distinguir o que era areia e o que era chão, ela olhava o céu se encher de nuvens e levar consigo o sol escaldante do verão.

O vento trouxe o barulho das risadas das crianças que se aventuravam a ir adiante no mar, até onde a água batia nos joelhos, e voltavam correndo, rindo e gritando, meio divertidos, meio assustados, quando um onda quebrava lentamente quase próxima ao chão.

Olhou as crianças como quem olha uma paisagem, sem sentimento algum, somente o doce contemplar do final de tarde de verão, como se elas não lhe pertencessem, nem fossem suas. Que solidão que deu em pensar que não eram suas. Não gostava de sentir assim, como se coisas que acreditava serem suas não o fossem de uma hora para outra.

Refez o pensamento e começou novamente a olhá-las, desta vez como mãe que era. Como era bom tê-las novamente, sempre perto. Pena que não eram de fato suas, pena que iriam, fatalmente, partir, por mais tardar que fosse. Não podia ter perto de si todos que amava, pois todos sempre iam embora, cada um com sua vida em apartado.

Pena que o vento não trouxesse, assim como trouxe até seus ouvidos o barulho das risadas, as pessoas que partiram sem deixar um último sorriso, deixando seu coração inundado por uma saudade transbordante de tristeza.

domingo, 25 de setembro de 2011

Os cinco melhores escritores do mundo (para mim)!

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Resolvi escrever sobre um tema que gosto muito, literatura. Dessa forma, enumerei abaixo os meus 5 escritores preferidos, que para mim são os maiores de todos os tempos. Que fique claro que é somente uma opinião pessoal, os que divergirem, podem deixar seus comentários e suas opiniões!

1. Gabriel García Márquez

O escritor colombiano foi influenciado por escritos de Franz Kafka, precisamente por “A Metamorfose”. Foi a partir daquele livro que decidiu que escreveria. Pensou consigo mesmo que se Kafka pôde colocar tantos absurdos e irrealidades no papel, ele também poderia escrever sobre o que tinha guardado dentro de si. Foi então que se tornou um dos principais expoentes do realismo mágico, ou fantástico. Basicamente toda a obra de Gabo é salpicada por uma realidade fantasiosa e imaginária, mesclando componentes reais da história e dos costumes da América Latina. Tem entre seus livros mais aclamados “Cem anos de Solidão”, “ O amor nos tempos do Cólera” e “ O Outono do Patriarca”, sendo este último seu livro preferido, apesar de ser mundialmente reconhecido pelo primeiro. García Márquez ganhou o Nobel de Literatura no ano de 1982 e está entre os maiores escritores do mundo, mas em primeiro lugar de minha lista.




2. Machado de Assis

Obviamente, valorizando o que é nosso, não poderia deixar de colocar aqui, abaixo do que pra mim é o maior de todos os tempos, o brasileiro que quebrou todos os preconceitos e é reconhecido mundialmente. Machado de Assis foi autoditada, ou seja, aprendeu a ler e escrever, e tudo o mais, sozinho. Não freqüentou escolas regulares e era filho de uma negra com um branco, numa época em que imperava o preconceito racial. Vindo de família pobre, Machado teve a ajuda de outro escritor de sua época para que desse início ao que faria dele o maior escritor brasileiro. Começou a escrever semanalmente em um jornal e seus contos publicados foram sendo aclamados e reconhecidos pelo público. Dentre as obras mais famosas de Machado de Assis estão “Dom Casmurro”, “Memórias póstumas de Brás Cubas”, “ Memorial de Aires” e “ Quincas Borba”. Machado é reconhecido pela sua vertente realista, sendo que antes de ingressar no realismo Machado escreveu alguns romances na escola literária do Romantismo, não obtendo êxito. Machado não tem Nobel, mas é o trunfo de todos os brasileiros e ocupa o segundo lugar na minha lista.


3. Pablo Neruda

Conhecido como O Poeta, Neruda foi Nobel de Literatura no ano de 1966. O grande escritor chileno é reconhecido por valorizar sua terra em todas as suas obras, declarando seu amor incondicional ao Chile. Ao longo de muitos poemas, Neruda se dedica a descrever as minas de cobre, que cercam o Chile por todos os lados, a Patagônia, lugar em que viveu muito tempo, dentre outras belezas naturais chilenas. Além desses poemas, Neruda é também o poeta do amor, sendo que grande parte de seus escritos tratam de falar de casos do coração e histórias de amor, sendo reais ou fictícias. Afora as poesias, Neruda escreveu um livro de Memórias, “Confesso que Vivi”, uma obra para ser aclamada por todas as gerações. Neruda transforma seus versos em prosa sem que percam o lirismo e relata ao leitor grandes episódios de sua vida. Ocupa então, o terceiro lugar de minha listinha!





4. João Guimarães Rosa

Esse escritor mineiro de Cordisburgo é conhecido por sua complexidade. Tem como pano de fundo de todos os seus romances o Sertão. Mas não aquele sertão conhecido pela maioria, o sertão nordestino, da seca e aridez. Guimarães Rosa retrata em seus romances o sertão de Minas e seus costumes, os grupos que reinam naquele local e quem decide o que acontece naquela terra de ninguém. Em determinadas épocas de sua vida, Guimarães Rosa foi acusado de pacto com o demônio, figura também muito discutida em suas obras, como símbolo do mal, assim como Deus, como o lado oposto, o do bem. Dentre seus livros, sem dúvida alguma “Grande Sertão: Veredas” é o que ocupa o primeiro lugar, seguido por “Sagarana”, “Corpo de Baile” e outros. O escritor também é conhecido por criar novas palavras que acabam por integrar sua personalidade diferenciada como escritor.


5. Fiódor Dostoiévski
Escritor russo de fama mundial, Dostoiévski é para mim o principal expoente da maravilhosa literatura russa. Condenado à morte por ser considerado subversivo ao regime de sua época, foi salvo no último grito e acabou escapando da forca sendo trocada a pena por anos de trabalho forçado na Sibéria. Afinal, a pena rendeu um de seus melhores livros, a meu ver, “Recordações da casa dos mortos”, além de “Memórias do subsolo”. Entre seus maiores livros estão “O Idiota”, pelo qual se tornou mundialmente conhecido, "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamazóv", a meu ver, seu melhor livro, que retrata de forma completa os costumes da cultura russa e tem um belo tema de fundo para o romance: o parricídio.


Esses são, na minha opinião, os cinco maiores esritores, indispensáveis à formação, pelo menos o foram à minha!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Perda

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De tanto querer, o sonho deixou de sonhar e os olhos cansaram de tal maneira que não viam mais o que lhes passava nas vistas. Tudo era cinza e vazio. O querer já não tinha nome. O fim chegou sem grandes tempestades, chegou no silêncio da palavra não dita, no vazio de um olhar, na falta da presença constante. As grandes esperanças se esvaíram de um suspiro cansado de tanto suspirar. Mas no silêncio do que não foi dito, pairou no ar o barulho incessante dos corações, que pulsavam acelerados. A pergunta que ela queria fazer, calou-se. Os segredos que ele queria contar, não podia, pois ela havia se tornado todos eles.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As Borboletas de Margarida

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Nunca ninguém soube explicar, nem que vagamente, qual era a origem e o por que de aquelas borboletas sempre rondarem a existência de Margarida. Desde que veio ao mundo junto com uma tempestade de dezembro, as borboletas laranjas vieram junto. Primeiro, perceberam a presença delas na enfermaria, na qual deixaram a pequena Margarida à espera de ser levada para casa. Quando deram por conta daquelas borboletas surgidas de forma desconhecida dentro de uma enfermaria, no meio da madrugada, todos deram de ombro e pensaram que deviam estar ali desde antes da tempestade que desaguou naquele fim de tarde e que lá permaneceram até então, só que ninguém ainda as havia visto.

No entanto, as borboletas nunca sumiram da vida de Margarida. Quando ela foi para sua casa com seus pais, um cortejo de pequenas borboletas laranjas e amareladas seguiu o carro e entrou na garagem da casa mais que depressa. Quando os portões fecharam, as borboletas sumiram para reaparecerem depois já dentro da casa, instaladas no quarto que viria a ser da recém chegada Margarida.

Embora desde sempre achassem o fato estranho e curioso, os pais da menina nunca se preocuparam de fato com a presença daqueles insetos amigáveis e que traziam um colorido um tanto vivo ao quarto branco e rosa de sua filha. Na verdade, se acostumaram tanto com a presença dos seres coloridos que quando não as viam logo de cara por perto da filha achavam estranho e logo começavam a varrer com o olhar o chão do lugar onde haviam deixado a filha, temendo que pudessem ter morrido, como um sinal de mau presságio. Mas logo as viam em alguma quina de parede, algum móvel um pouco mais escuro no qual era difícil de serem identificadas.

Os anos foram passando e Margarida, crescendo. Seus cabelos acabaram sendo alaranjados, de um ruivo pálido e vibrante ao mesmo tempo, sempre preso em tranças. Laranjas como as borboletas que pousavam neles. A pele cálida lembrava uma boneca de porcelana e as sardas que tinha pelo rosto, logo abaixo dos olhos, pareciam pequenos desenhos de borboletas que voavam rumo aos olhos da menina. Os olhos azuis, de um azul escuro e impenetrável, no qual, por mais que se olhasse, não conseguia distinguir um átimo de pensamento ou vontade de Margarida.

Como moça bonita que era, não tardaram a lhe aparecer pretendentes. Vinham de todos os lados, de todos os tipos e com todas as intenções, boas ou más. Os que vinham com as más intenções, logo desistiam da empreitada, pois como só queriam usufruir um pouco que fosse da beleza da moça, não conseguiam aturar aquele bando de borboletas sobrevoando suas cabeças e fazendo ventar o ar perto de suas orelhas. Afinal de contas, não valia tanto assim uma transa, qualquer que fosse ela. Já os bem intencionados, embora aguentassem pacientemente as borboletas pairando sobre suas cabeças e pousando em lugares não desejados, ficavam desolados pelo desinteresse da menina. Acabavam, assim como os mau intencionados, desistindo da paixão platônica pela moça com nome de flor do campo.

Com o tempo, os pretendentes de todos os tipos passaram a ser de tipo nenhum. Viram que Margarida vivia em um mundo só dela, com suas amigas de berço sempre ao lado protegendo a ruiva que lhes dera a vida. Parecia que nem era desse mundo. Tudo o que pensava era em voar, num céu azul límpido e sem nuvens, se abrigar embaixo das folhas das árvores e contemplar a beleza do mundo. Os pais já haviam desistido de tentar faze com que se interessasse por pessoas, rapazes ou moças, com quem pudesse partilhar tanto amizades como namoros. Margarida sempre respondia irredutível às investidas dos progenitores: "Não tenho interesse."

Da mocidade fez-se a maturidade, e dela fez-se a velhice, que chegou muda e na ponta dos pés, com medo de ser notada e que lhe fugisse o corpo tão almejado no qual pudesse habitar. As sardas, antes completamente visíveis nas bochechas da agora velha senhora, estavam enrugadas, amassadas pelo tempo. As borboletas também alcançaram a velhice junto com Margarida, mas estavam tão velhas quanto ela, parecendo folhas contorcidas ao vento. Nem voavam mais, ficavam pousadas o tempo todo na poltrona em que a velha tecia guardanapos de todas as cores que tinha na caixa de costuras, com muitas borboletas desenhadas. E assim passavam os dias da velhice de Margarida.

Embora nunca houvessem lhe dado uma resposta para o caso das borboletas, Margarida tinha uma, pensada e projetada por ela mesma. Acreditava que as borboletas lhe deram a vida, por isso pudera viver tão bem. E só assim o vivera por que dedicara muito de seu tempo, senão todo ele, a ser amiga e companheira daquelas que tinham nascido com ela e estado ao seu lado em todos os momentos de sua vida. Fora fiel a quem por ela tinha feito muito. Quando contou sua teoria a alguma vizinha fofoqueira, logo começaram a falar que a senhora do 9 tinha perdido a razão, criando uma história na qual transformou em Deus as borboletas.

Margarida não ligava. Sabia que se tivesse fé em algo, como tinha em sua certeza, não importava o que dissessem, pois saberia ser verdade aquilo que sempre teve fé. Tinha fé nas borboletas, que de uma forma ou de outra coloriram seus dias, acompanharam seus passos, avisaram de sua chegada para outras pessoas e foram fiéis sempre, mesmo quando não havia mais fidelidade nesse mundo.

Numa manhã cinza do mês de julho, amanheceram todas mortas. As borboletas, murchas pelo tempo, caídas em cima do lençol branco, junto ao pé de Margarida. Essa, por sua vez, ia embora junto com as companheiras de sempre, que lhe deram vida enquanto viveram e a levaram consigo quando morreram. Fiéis como sempre.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Como eram os domingos...

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Quando os sinos tocavam e a canção de ave-maria rasgava o silêncio das monótonas tardes de domingo, já ao cair da noite, abatia-se sobre a menina a nostalgia de tempos inexistentes. O céu parecia mais baixo e o vento não ventava. O único som daqueles finais de tarde era o da melancólica melodia emanada pela igreja mais próxima e dos pássaros se refugiando em seus ninhos ao cair da noite. Em sua mente e em seus sonhos, a menina sabia que teria como lembrança mais vívida e nostálgica daqueles dias o som da ave-maria nos desde sempre depressivos domingos.

Passados os anos, agora nos outrora tempos inexistentes de antes, quando relembra dos antigos domingos, na memória lhe surge rapidamente a infância, as brincadeiras de boneca, de bola, as cirandas juvenis e os passeios de bicicleta. Como podem dias tão simples trazer na lembrança tão diferentes sensações, esquecidos sentimentos e emoções?

Na vida da mulher de agora, olhando para os tempos de antes, sua vida lhe parecia ser tocada por requintes de magia e fábula, uma época distante e querida, perdida para sempre em sua infância longínqua, naqueles dias tomados por poucas preocupações, muitas alegrias e brincadeiras.

Os domingos de sua vida, com o passar dos anos, mudaram. Mas uma característica à eles inerente nunca foi alterada: todos os domingos sempre foram excessivamente melancólicos e depressivos. A melancolia apenas mudou de cara e ficou mais séria, pois infelizmente, diferentemente dos dias de antes, os de hoje são cheios de reais preocupações, medos, inseguranças e saudades.

São tantas as saudades que sinto de quem está longe...Pena que essa saudade não se restrinja somente aos domingos, quando nos despedimos...


" ...You can't turn back the clock you can't turn back the tide
Ain't that a shame
I'd like to go back one time on a roller coaster ride
When life was just a game
No use in sitting and thinkin' on what you did
When you can lay back and enjoy it through your kids
Sometimes it seems like lately - I just don't know
Better sit back and go with the flow

Cos these are the days of our lives
They've flown in the swiftness of time
These days are all gone now but some things remain
When I look and I find no change..."

sexta-feira, 1 de julho de 2011

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“Entre os ventos do sul como do norte
                                                                                 lá vou eu, lá vais tu, lá vamos nós.
   Dor não existe que não se suporte
                                                                                          e estamos sós, terrivelmente sós...”

Alphonsus de Guimaraens Filho

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Juliette

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Estava se cansando daquele vai e vem o tempo todo. Era um entra e sai constante. O corpo de Juliette não tinha folga, era usado da hora em que acordava até a hora em que ia dormir. As vezes, até mesmo na hora em que já dormia. Sua mente, entretanto, ao contrário do corpo, vadiava o dia todo, a noite toda, em busca de horizontes ensolarados e noites estreladas. Pensava num mundo distante, pensava em ser a heroína, em acabar com a fome, em fazer cessar as guerras do mundo, em ser famosa, admirada, aplaudida e reconhecida pelo talento que tinha. Sim, pois Juliette tinha muitos talentos, eles apenas ainda não haviam sido descobertos (nem por Juliette, nem pelo resto do mundo). Mas bonita do jeito que era, tinha de ter alguns talentos encobertos.
Queria fazer muitas coisas diferentes, queria ajudar os necessitados (embora fosse uma), queria poder dormir em uma cama macia de lençol rosa com almofadas floridas, queria poder ir à missa aos domingos a noitinha. Mas não era possível, o movimento dos clientes não dava uma trégua.
Pensava em ir à missa para se aproximar de Deus. No quarto em que atendia a freguesia, no cafofo onde morava, construído com papelão e uns pedaços de madeira, tinha uma imagem de jesus que olhava sempre pra ela. E ela olhava sempre pra ele, enquanto trabalhava. Juliette trabalhava tanto que não sabia se isso a fazia ser mais puta ou mais santa.